miércoles, 31 de diciembre de 2008

Para levar em conta daqui em diante... a linguagem é arbitraria!

ZH: Terça-feira, 30 de dezembro de 2008
Entrando em acordo

Este post vai para aqueles amantes da literatura que vão ter de se esforçar bastante para se acostumar a ler as aventuras de Eneias na epopeia Eneida, de VIrgílio, ou a saga de Ulisses na Odisseia, ou as proezas dos que lutaram em Troia, assim mesmo como está escrito, sem o acento no ditongo aberto. O mesmo vai acontecer a partir de primeiro de janeiro com a coletânea de contos Patuleia, de João Antônio, com Os Últimos Dias de Pompeia, de Lord Bulwer Lytton, com a Medeia, de Eurípides, com a recente edição em português de O Caçador de Androides, de Philip K. Dick, e isso que eu falei apenas de obras consagradas e, por enquanto, deixei de lado os autores que estão fazendo sua estreia na literatura. Com o fim do trema, extinto para sempre a não ser em palavras e nomes estrangeiras (como o do alemão Heinrich Böll, por exemplo, ou o também alemão Heiner Müller, mais próximo de nós já que Müller é um sobrenome comum de muita gente que reside no Brasil), teremos de nos acostumar também com coisas como O Americano Tranquilo, de Graham Greene, ou qualquer obra que analise a arte clássica da Eloquência.

Como vocês puderam ver no trecho acima, deliberadamente cheio de casos que são afetados pela nova ortografia oficial do idioma português que entra em vigor a partir de 1º de janeiro, algumas das obras com as quais nós, leitores, nos formamos, e que nos acostumamos a ver escritas de um modo, agora serão escritas de outro. Zero Hora, bem como outras publicações periódicas de grande circulação, já começa a usar a nova ortografia a partir deste dia 1º de janeiro, o que vale também para este blog, portanto não estranhem se encontrarem neste espaço alterações como as apresentadas no início deste texto, variações sutis para os títulos com os quais vocês já estavam acostumados

Na prática, muda pouca coisa no acordo, e muita gente que se vira razoavelmente bem no idioma vai poder passar um bom tempo sem usar nenhuma das palavras alteradas, mas as principais mudanças são as seguintes:

* Eliminação do trema, como já dissemos antes (menos, repetindo, em sobrenomes ou palavras estrangeiras e seus derivados).
Logo, todos os livros infantis com Pinguim já vão mudar, de cara. E são muitos. Ou edições novas do Homem Delinquente, de Cesare Lombroso.

* Alteração nas regras de acentuação para ditongos abertos ei e oi em paroxítonas e para hiatos com vogais.
É aí que entram os títulos que comentamos antes e outros ainda, como O Voo da Madrugada, de André Sant'Anna, Joias de Família, de Zulmira Ribeiro Tavares, e até para muito livro vagabundo de autoajuda, como Ideias para sua Carreira ou coisa parecida. Mas atenção: as oxítonas conservam o acento, então O Senhor dos Anéis, de Tolkien, o Capítulo dos Chapéus, de Machado de Assis, e Entre os Fiéis, de V.S. Naipaul, não mudam nada.

* alterações no hífen.
Essas não tem lá muito como sistematizar em uma norma única e mais simplificada, a chave é mesmo saber caso a caso. Toda palavra composta em que o segundo termo tem H leva hífen, e portanto o Super-Homem de Nietzsche continua com seu hífen onde sempre esteve. Mas quando a primeira palavra termina com a mesma vogal que inicia a segunda palavra do composto, o hífen também passa a ser obrigatório, e, portanto, aquele aparelho em que o detetive Espinosa, o policial recorrente dos livros de Luiz Alfredo García-Roza, esquenta sua lasanha congelada horrorosa, o micro-ondas, agora se grafa assim.

Alguns poderiam dizer que essa regra evitaria choque de letras iguais em uma palavra composta, mas o fato é que quando não separou o que estava junto, o acordo juntou o que estava separado - e ainda dobrou letras. Quando prefixos terminados em vogal encontram palavras começadas em R ou S, cai o trema, junta-se as duas e dobra-se o r ou o s. Assim, as obras militantes Deus: um delírio, de Richard Dawkins, e Deus não é Grande, de Christopher Hitchens, passam a ser definidas como manifestos antirreligiosos.

O mais engraçado é que o acordo não unifica muito, no fim das contas. As grandes diferenças de pronúncias e acentuação entre Portugal e Brasil (aqui se diz bebê e lá bebé, lá usam Amazónia, aqui Amazônia, lá é gémeo, aqui é gêmeo) continuam, porque não há como alterar o que é resultado de pronúncia diferente, e portanto o acordo estabelece formas duplas de ortografia, uma tão válida quanto a outra. O último livro de António Lobo Antunes publicado no Brasil, Ontem não te vi em Babilónia, não teria modificação alguma no título ou no nome do autor.

Bem vindo ao Admirável Português Novo, meu companheiro neoanalfabeto (assim, sem hífen e tudo junto).

Veja mais aqui: http://www.filologia.org.br/acordo_ortografico.pdf

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